Empresas sabotam estudo de transgênicos, diz grupo

São Paulo, sábado, 21 de fevereiro de 2009

Empresas sabotam estudo de transgênicos, diz grupo

Monsanto, Syngenta e DuPont vetam uso de planta em pesquisa independente

Agricultores que compram sementes modificadas têm sido impedidos de fornecer amostras a cientistas, diz relatório enviado à agência

24.out.2008/Associated Press

Agricultor monitora milharal transgênico em Iowa, nos EUA
ANDREW POLLACK
DO “NEW YORK TIMES”

Empresas de biotecnologia estão impedindo cientistas independentes de pesquisar a eficácia e o impacto ambiental de plantações geneticamente modificadas, afirma um relatório encaminhado ao governo americano por um grupo de 26 pesquisadores de universidades.
“Nenhuma investigação independente pode ser conduzida de forma legal em muitas questões críticas”, escreveram os cientistas na declaração apresentada à EPA (Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos), que está recolhendo opiniões para pautar uma série de encontros científicos que realiza nesta semana sobre transgênicos.
A declaração vai provavelmente dar força aos críticos dessas plantações, como grupos ambientalistas que há muito queixam-se de que transgênicos não têm sido suficientemente estudados e que poderão ter consequências inesperadas à saúde e ao ambiente.
Os autores do novo manifesto, especialistas em insetos de milharais, não divulgaram seus nomes porque receavam ser cortados de pesquisas pelas empresas. Mas vários deles concordaram em dar entrevistas e ter seus nomes utilizados.
O problema, dizem os cientistas, é que os agricultores e outros compradores de sementes geneticamente modificadas têm de assinar um acordo para garantir que honrarão os direitos de patentes e os regulamentos ambientais. Mas os acordos também proíbem o cultivo das culturas para fins de pesquisa.

Permissão negada
Dessa forma, enquanto cientistas de universidades podem comprar livremente pesticidas ou sementes convencionais para suas pesquisas, não podem fazer o mesmo com sementes geneticamente modificadas.
Em vez disso, devem solicitar autorização das empresas de sementes. E, às vezes, a permissão é negada ou a empresa insiste em rever as conclusões antes de poderem ser publicadas, afirmam os pesquisadores.
Esses acordos são problemáticos há muito tempo, mas os cientistas disseram ter ido a público agora porque suas frustrações foram se acumulando.
“Se as empresas podem controlar a pesquisa, elas podem esconder possíveis problemas que apareceriam em qualquer estudo”, diz Ken Ostlie, professor da Universidade de Minnesota, um dos cientistas que assinaram a declaração.
O mais surpreendente é que os cientistas que fizeram o protesto -a maioria deles afiliados a universidades com grandes programas em agrociências- dizem não ser opositores do uso da biotecnologia.
Entretanto, dizem, a asfixia provocada pela indústria sobre as pesquisas faz com que eles não possam fornecer algumas informações para os agricultores sobre a melhor maneira de cultivar as lavouras.
E, afirmam, os dados fornecidos a órgãos reguladores do governo estão sendo “indevidamente limitados”. As empresas “têm o potencial de maquiar os dados, a informação que é submetida à EPA”, afirma o entomologista Elson J. Shields, da Universidade Cornell.

Licença interrompida
Os acordos da Syngenta com os agricultores não só proíbem a pesquisa em geral mas também dizem que um comprador de semente não pode comparar um produto da empresa com qualquer outra cultura rival.
Ostlie, conta que, ainda em 2007, tinha permissão de três empresas para comparar a maneira com que as variedades de milho resistentes a insetos se saíam contra uma larva de besouro que ataca a cultura.
Mas, em 2008, a Syngenta, uma das três empresas, retirou sua permissão, e seu estudo precisou parar. “A empresa decidiu que não era de seu interesse deixar que a pesquisa continuasse”, afirmou.
Chris DiFonzo, da Universidade Estadual de Michigan, disse que, quando conduz suas pesquisas em insetos, evita entrar em campos com culturas transgênicas porque sua presença faria com que os agricultores violassem os acordos e ficassem sujeitos a processo.

Lula é o único economista que presta no Brasil, diz Delfim Neto

‘Lula é o único economista que presta no Brasil’

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Delfim Netto diz que virtude de Lula é falar a verdade sobre a economia

Roberval Angelo Schincariol e Roger Marzochi, da Agência Estado

Em meio ao desespero nos mercados, Lula surge como encarnação do otimismo

Pedro Bottino/arte estadao.com.br

Em meio ao desespero nos mercados, Lula surge como encarnação do otimismo

SÃO PAULO – Para o economista Antônio Delfim Netto, ministro da Fazenda em tempos de chumbo e de milagre econômico, o que fará a diferença na economia do tão temido ano de 2009 é a sensibilidade do brasileiro. E, segundo o professor emérito da FEA-USP, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva é a encarnação do otimismo. “Lula é o maior economista do Brasil”, diz Delfim. Em entrevista à Agência Estado, concedida na manhã do dia 10 de dezembro, em seu escritório localizado ao lado do Estádio do Pacaembu, no bairro paulistano de Higienópolis, o economista falou de Platão, Aristóteles, Henry Paulson, Alan Greenspan e, claro, Lula. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Qual a avaliação que o sr. faz sobre os impactos da crise financeira no Brasil em 2009?

Você está em um ambiente complicado e é claro que o Brasil vai pagar o preço de fazer parte do mundo, como tem os benefícios. O Brasil usou a expansão que houve no mundo. E eu estou convencido de que esta crise é, simplesmente, a própria crise de 2001 consertada pelos economistas. Teve a crise em 2001, que foi a crise do pontocom, que explodiu, e apareceu aquela patifaria da Enron. E como é que os economistas resolveram essa crise? Fornecendo liquidez e permitindo que toda a imaginação do sistema financeiro se exercitasse plenamente, com a idéia de que o sistema tinha em si uma moralidade ínsita. Portanto, ninguém precisa se preocupar porque é tudo gente correta, que não vai fazer nada de patifaria…

O sr. avalia que hoje, então, houve o estouro da bolha da moralidade?

Não, a moralidade já explodiu na Enron. E o que o governo foi fazendo? O Fed e o Tesouro americano passando a grosa, permitindo que você fizesse um curto-circuito aqui, outro lá. Quando o (Henry) Paulson (secretário do Tesouro) tomou posse, em 2006, ele declarou: “Eu vim para acabar com o resto de regulação que está perturbando o crescimento.” Em 2006! A crise já estava explodindo! Então, você está diante de um fato: os economistas são capazes de produzir uma crise, mas não podem resolvê-la. A crise está fora da economia.

Seria uma crise de expectativa?

Seria uma crise de expectativa, de crença, de confiança Qual é a origem da sociedade? Está no velho Platão, antes do Aristóteles. Para a coisa funcionar, tem de ter possibilidade de trocar o meu trabalho com outro. E tem de ter uma moeda. Nós estávamos produzindo milho. Eu vivia pobre, você também. Mas eu produzia o meu, você produzia o teu. Mas chegamos a um acordo. Eu vou produzir o milho e você vai fazer um buraco aí até conseguir água, depois a gente irriga o milho, vai dobrar a produção e vamos viver melhor. Esse é o progresso. Está no Adam Smith. Divisão do trabalho. Isso exige que eu confie que, enquanto eu estiver produzindo o milho, você esteja fazendo o buraco. Então, a confiança precede a sociedade. Ela é o cimento, o fator catalítico que faz funcionar a sociedade. Os economistas nunca se preocuparam em saber o que estava por trás do mercado. Atrás do mercado está o Estado. E, atrás do Estado, está a confiança.

É quando o sr. diz que economia não é ciência.

É claro que economia não é ciência. É um bom conhecimento empírico que deve ajudar a administração. Porque o homem tem um defeito enorme: ele pensa. Se o átomo pensasse, a física seria bem mais complicada. Na verdade, o homem aprende. Na economia, ele aprende e se defende. A minha idéia é que você tem de pagar o preço de estar no mundo, mas temos condições melhores. Nem é por virtude. Foi por um acidente. Nós tivemos uma crise bancária muito séria, fizemos um Proer e, com ele, nós demos uma arrumada no sistema bancário.

O Proer foi positivo para o sistema?

Eu vejo o Banco Central (BC) como dois ‘animais’. Um tem nota dez, outro tem nota dois. O BC fiscalizador se saiu muito bem. Os bancos estão hígidos, têm alavancagem baixa, são cuidadosos. É claro que o Brasil tem contato com o mundo e precisava de financiamento externo para fazer funding dos bancos.

Na atual crise, o BC agiu no tempo certo?

A ação do BC foi no tempo próprio, com alguns pecadilhos. Em lugar nenhum do mundo o BC diz: “Eu vou dar dinheiro para banco grande comprar banco pequeno.” Muito menos vou dar dinheiro para banco público, porque aqui você tem dois problemas graves: a higidez de um banco não depende nem da sua propriedade nem do seu tamanho. O banco público não é muito mais seguro que nenhum banco privado. Mas por uma simples razão: porque banco, por definição, é quebrável.

Quando o sr. diz que o BC não deveria ter dito que o dinheiro era para comprar bancos pequenos, deveria ter dado o dinheiro sem dizer…

Não, deveria ter feito as coisas já de uma vez! Não deveria usar a técnica do conta-gotas. Quando se faz um sistema no qual eu compro a carteira do outro, estou levantando dúvidas sobre essa carteira. É como ter um dinossauro Rex de boca aberta e tem uma galinha que eu estou espantando para a boca do dinossauro.

Hoje sofremos o risco de, ao tentar resolver esta crise, criarmos outra?

Eu acho que hoje as pessoas estão aprendendo. Primeiro, porque se não fosse o Brown (Gordon Brown, primeiro-ministro britânico), o Paulson estava até hoje procurando a causa do problema. Com sua intuição inglesa, Brown disse: “Não, o problema é do capital. O problema veio da alavancagem que vocês fizeram.” Nunca houve uma coordenação mundial como está havendo. Se tudo funcionar mais ou menos, essa crise deve ser menor do que seria sem a intervenção do governo e mais rápida do que seria sem ela.

Mas o sr. não avalia que a crise financeira será tão forte no Brasil como está sendo para o resto do mundo?

A crise americana vem vindo desde o começo de 2007. No Brasil, não. É uma crise datada. Vinha se desarrumando e, quando o Paulson faz a barbeiragem no Lehman, desaba tudo. Ou seja, ele matou o fator catalítico, que era a confiança. E no Brasil ocorreu uma função descontínua. É uma crise de confiança que atingiu os bancos lá fora.

Mas houve uma queda na concessão de crédito no Brasil.

Você imagina uma coisa. Chega um grande banqueiro brasileiro no Waldorf-Astoria e encontra com o homem do Citi, na sua importância, para dizer: “Eu ainda não cortei o crédito lá.” O homem do Citi diz: “Esse sujeito não faz parte do nosso clube ” Agora, nenhum deles fez patifaria aqui, nem sei se por virtude É que aqui tinha formas de ter retorno muito mais seguro e mais alto que com a patifaria.

Com juros?

Então, nós já tínhamos a mais alta taxa e fizemos o maior aumento do mundo. Quando o mundo inteiro reduziu, nós continuamos insistindo na mesma política. Isso tudo, que era um defeito enorme, agora as pessoas dizem que foi uma clarividência É como aquele francês, para quem ofereceram a Brigitte Bardot. Só que hoje ela está com 80 anos!

Se o senhor fosse o presidente do BC, qual seria a taxa ideal de juros?

O Brasil não tem nenhuma razão para ter a maior taxa de juro do mundo. A taxa de equilíbrio é 3%, 3,5%, como é no mundo todo. Com inflação de 5%, poderíamos rodar com 8% nominal. Mas tudo isso é absolutamente irrelevante porque o BC nem tem mecanismo para fazer esse negócio. Então, vamos pensar onde paramos. Paramos por uma questão psicológica. O Lula é o único economista que presta no Brasil porque é o único que está falando a verdade. A intuição dele mostra o seguinte: nós estamos interrompendo o circuito econômico porque, se você não comprar o carro, porque tem medo de ficar desempregado, é certo que você vai ficar desempregado, porque a Volkswagen não faz o carro por medo que não vai ter demanda. E o banqueiro, no final, que pensa que está salvo, ele também vai morrer junto com o sistema.

É como o sr. já comentou que, ao pregar a morte do crédito, os banqueiros acabam se “suicidando”?

Eles se suicidam porque não têm outro remédio. Porque nenhum banco é seguro! E aqui é que vem a segunda crítica à política do BC. Quando ele diz que está dando dinheiro para o Banco do Brasil, para a Caixa Econômica pra fazer isso ou aquilo, está dizendo o quê? Esses bancos são mais seguros. Isso tudo é um equívoco monumental.

Como o sr. mede a expectativa hoje?

O Lula, com todas as críticas… As pessoas ficam furiosas com o Lula. Porque há, na verdade, um preconceito enorme. A vantagem do Lula é não ter um curso superior.

É uma vantagem?

Sim, não é um prejuízo. Senão ele estava igualzinho aos de curso superior aí dizendo “tá tudo perdido!, “estamos perdidos!”, “‘sifu’ para todos nós!”. Então, o que acontece? É uma atitude ingênua, mas que corresponde a uma realidade. O fator principal é restabelecer aquilo que é o cimento da sociedade, que é a confiança.

Em uma entrevista recente, o sr. afirmou que não fazia previsões para 2009…

O que você pode esperar do Brasil? Devido a essas condições, pode-se esperar uma situação um pouco melhor. Não adianta fazer editorial dizendo que o Lula é oportunista, que fala errado. Também ele não vai brigar por conta disso. E dizer que o Lula não conhece física quântica porque ele também prefere não saber física quântica. O que ele conhece é gente. Então, se quatro quintos do Nordeste e dois terços do Sul acreditam no Lula, é porque tem alguma coisa que funciona.

E quanto disso pode se refletir no crescimento do Brasil?

Qualquer número é um chute. A minha convicção é a seguinte: quando o Brasil cresce? Cresce quando cresce mais que o mundo.

O sr. não pensa em voltar para o governo?

Você está louco! Esquece essas coisas. Deixa eu te contar. Hoje é outro mundo. Hoje você precisa de gente e de uma arrumação do governo. Desligou já isso (o gravador)? Não, não tem nada de desligar não, é isso mesmo.

Desemprego ameaça estabilidade global

São Paulo, segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Desemprego ameaça estabilidade global

Onda de demissões avança pelo mundo, e agência da ONU diz que 50 milhões de empregos podem ser perdidos

DO “NEW YORK TIMES”

Desde advogados em Paris até operários de fábricas na China e seguranças na Colômbia, as fileiras dos desempregados estão inchando rapidamente em todo o mundo.
As perdas de empregos decorrentes da recessão que começou nos Estados Unidos em dezembro de 2007 podem chegar a estarrecedores 50 milhões até o final deste ano, de acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), uma agência das Nações Unidas. A recessão já levou à perda de 3,6 milhões de empregos nos Estados Unidos.
Os altos índices de desemprego, especialmente entre trabalhadores mais jovens, já levaram a protestos em países tão diversos quanto Letônia, Chile, Grécia, Bulgária e Islândia e contribuíram para greves no Reino Unido e na França.
No mês passado o governo da Islândia, país cuja economia está prevista para se contrair em 10% neste ano, caiu, e o primeiro-ministro adiantou as eleições nacionais, após semanas de protestos enfurecidos.
Na semana passada, o novo diretor de inteligência nacional dos Estados Unidos, Dennis C. Blair, afirmou ao Congresso que a instabilidade causada pela crise econômica global já é a maior ameaça à segurança norte-americana, passando o terrorismo.
“Quase todo o mundo foi pego de surpresa com a rapidez com que o desemprego vem crescendo, e quase todos estão sem saber como reagir”, disse Nicolas Véron, do centro de pesquisas Bruegel, em Bruxelas, na Bélgica.
Em economias emergentes como as da Europa Oriental, teme-se que o desemprego crescente possa incentivar um afastamento da política de livre mercado, pró-ocidental, enquanto, nos países desenvolvidos, o desemprego pode reforçar o protecionismo.
De fato, alguns pacotes de estímulo europeus, além do plano de US$ 787 bilhões aprovado nos Estados Unidos anteontem, incluem proteções para empresas domésticas, elevando a probabilidade de batalhas comerciais protecionistas.
Enquanto o desemprego vem crescendo nos EUA desde o final de 2007, só recentemente as demissões na Europa, na Ásia e no mundo em desenvolvimento ganharam ritmo.
O FMI prevê que até o fim do ano o crescimento econômico global chegue ao nível mais baixo desde a Grande Depressão dos anos 1930, segundo Charles Collyns, vice-diretor do departamento de pesquisas do Fundo. De acordo com o FMI, o crescimento mundial “virtualmente parou”, e a previsão é que as economias desenvolvidas encolham 2% neste ano.
“É a pior situação desde 1929”, disse o ministro do Emprego da França, Laurent Wauquiez. “O que é novo agora é que a situação é global, e estamos sempre falando sobre isso. Está em todos os países.”
Na Ásia, qualquer atitude de satisfação arrogante que possa ter existido por suas economias terem escapado de ser prejudicadas pela dívida de alto risco americana foi apagada pelo desespero crescente gerado pela queda das vendas dos maiores exportadores.
Milhões de trabalhadores migrantes na China continental estão procurando trabalho, mas constatando que as fábricas estão sendo fechadas. Embora essas manifestações não tenham sido tão grandes quanto as da Grécia ou as do Báltico, já houve dezenas de protestos em fábricas individuais na China e na Indonésia.
Os chamados por protecionismo vêm encontrando eco entre um público assustado. No Reino Unido, empregados de refinarias e usinas elétricas fizeram greve em protesto contra o uso de trabalhadores da Itália e de Portugal numa obra.
A expectativa é que até meados do ano que vem o desemprego no Reino Unido chegue a 9,5%, contra 6,3% no momento; na Alemanha, pode subir de 7,8% para 10,5%. Mesmo a Índia estancou. Cerca de 500 mil pessoas perderam seus empregos entre outubro e dezembro do ano passado.

População japonesa se adapta à crise

São Paulo, segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

População japonesa se adapta à crise

DO “FINANCIAL TIMES”

Hidenobu Ishikawa, gerente de marketing, deseja uma nova câmera, mas não se atreve a conversar sobre o assunto com sua mulher. Soh Aoki passou o Ano-Novo em uma vila para sem-teto e desempregados, depois que de uma hora para outra não encontrou mais os trabalhos temporários que o sustentaram por vários anos. Mayumi Sakuma, um escritor free–lancer, ficou sem água quente por uma semana para economizar dinheiro para o conserto do gás. Por todo o Japão, as pessoas estão se ajustando às difíceis realidades da recessão.
“O impacto da crise é como três ou quatro bombas atômicas explodindo no mundo”, afirma Toshiaki Sumita, de uma empresa de vidro óptico que viu suas vendas caírem pela metade e cujas fornalhas estão paradas desde o início deste ano.
Inicialmente, o Japão parecia relativamente isolado dos problemas financeiros internacionais. Mas, enquanto o seu sistema bancário está em muito melhor forma do que o dos EUA e o da Europa, a economia real se mostrou muito vulnerável ao contágio global.
A decisão do governo dos EUA de deixar o Lehman Brothers quebrar, em setembro de 2008, atingiu o Japão de duas maneiras. Primeiro, a retirada de fundos estrangeiros afetou as já abaladas ações japonesas, enfraquecendo o capital dos bancos locais, tornando-os mais relutantes na hora de emprestar. Segundo, o colapso global da demanda por produtos como carros e eletrônicos atingiu violentamente o poderoso setor exportador.
Mesmo consumidores que não foram afetados diretamente por esses problemas reagiram cortando seus gastos, acrescentando a fraca demanda interna aos problemas gerais.
Mas é claro que nem tudo é sombrio no Japão. O país possui enormes reservas tanto de riqueza como de talento e muitas das suas empresas são impressionantemente enxutas. Ainda assim, mesmo algumas companhias que normalmente estariam bem posicionadas para se beneficiar dos problemas econômicos estão sofrendo.
Com as linhas de produção ociosas por todo o país, a Onuma Machine, que negocia equipamentos industriais usados, não encontra dificuldades para encontrar material para seus galpões. Mas o presidente da empresa, Hisao Onuma, diz que sofre para encontrar compradores ainda que os preços estejam a metade dos “bons tempos”.
Onuma, que, para economizar dinheiro, determinou que seus funcionários reduzam o consumo de eletricidade e não usem rodovias com pedágios, disse que a desaceleração global fez com que as economias vizinhas, como a China, não compensassem o espaço deixada pela queda japonesa. “Eu nunca vi nada como isso.”

PIB japonês tem maior queda em 34 anos

São Paulo, segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

PIB japonês tem maior queda em 34 anos

Segunda maior economia mundial encolhe 12,7% no 4º trimestre do ano passado e mostra situação pior que EUA e Europa

Economia japonesa está em recessão desde novembro de 2007, e FMI estima retração de 2,6% neste ano, na maior queda desde o pós-Guerra

DA REDAÇÃO

A economia japonesa engrenou o terceiro trimestre seguido de retração e o tombo foi o maior em 34 anos, mostrando resultados ainda piores que os dos Estados Unidos e da Europa e que a crise ganhou no final do ano passado ritmo e alcance não visto em décadas.
Com as exportações, seu tradicional motor, em queda e o mesmo acontecendo com a demanda interna, o Japão encolheu 12,7% na taxa anualizada nos últimos três meses de 2008, 10,4 pontos percentuais mais que trimestre anterior e o pior resultado desde 1974, na época do choque do petróleo, quando o recuo foi de 13,1%.
Para ter uma ideia da intensidade da crise na segunda maior economia mundial, o PIB (Produto Interno Bruto) japonês se retraiu em 3,3% no quarto trimestre em relação aos três meses anteriores. Já a Alemanha, a maior economia europeia e que, assim como a japonesa, tem um forte setor exportador, teve queda de 2,1% nessa mesma comparação, e os Estados Unidos, o epicentro da crise global, recuaram 1%.
Os últimos três meses de 2008 foram marcados pela concordata do banco Lehman Brothers na metade de setembro, detonando o agravamento da crise global e, consequentemente, da economia japonesa, que, segundo painel do governo, está em recessão desde novembro de 2007.
No caso japonês, essa piora da crise pode ser lida nos números do PIB: as exportações de bens e serviços recuaram 45% na taxa anualizada e a demanda privada caiu 2,6%. A taxa anualizada significa que, caso o número do trimestre se repita nos nove meses seguintes, esse será o dado final do ano.
Com a demanda mundial por carros e eletrônicos em queda devido à crise, as exportações japonesas estão em queda e grandes empresas do país vêm anunciando nos últimos dias demissões em massa, apontando que elas não esperam uma recuperação no curto prazo.
Companhias como Panasonic, Pioneer, Nissan e NEC disseram que pretendem fechar 65 mil postos de trabalho (a maior parte deles no Japão), além de várias fábricas, e outras, como a Toyota, que recentemente se tornou a maior montadora mundial, esperam o seu primeiro prejuízo anual para o período de 12 meses que se encerra em 31 de março.
Além dos problemas da crise, que diminuiu fortemente o apetite dos consumidores pelo mundo, as empresas japonesas enfrentam a valorização do iene, que derrubou a competitividade no exterior dos produtos do país asiático.
Com isso, a sua produção industrial recuou 9,6% em dezembro do ano passado, a maior queda desde o início do levantamento, em 1953, e a estimativa do governo é a de que tenha ocorrido uma nova retração de em torno de 9% no mês passado, sinalizando que a crise não perdeu força neste começo do ano. E a confiança das famílias, que representam cerca da metade da economia, está no menor nível em 26 anos.
A previsão do FMI é que o país encolherá 2,6% neste ano, que, se confirmada, será a maior queda no pós-Guerra.
Para o ministro da Economia do Japão, Kaoru Yosano, o país vive a pior crise econômica desde o fim da Segunda Guerra, em 1945. “Não há nenhuma dúvida sobre isso”, disse, complementando que o governo não pretende lançar novos planos para estimular a economia.
Para tentar reanimar a economia, o governo já lançou três pacotes de estímulo desde agosto do ano passado que, somados, chegam a quase US$ 700 bilhões (metade do PIB brasileiro de 2007), mas parte desses planos ainda está parada no Congresso, aguardando aprovação. E os juros estão em 0,1%, mas o BC não descarta a volta da política de taxa zero, adotada entre 2001 e 2006.


Com agências internacionais

Bruno Dallari – crítica à cobertura da Caros Amigos sobre a China

Caros Amigos,

achei vergonhoso o conjunto de matérias sobre a China publicadas na última edição do jornal. A forma como as matérias NÃO FALAM da realidade chinesa as fazem parecer quase publicidade ou matéria paga.

A China é uma ditadura feroz, não só com censura à imprensa e à internet, mas inclusive com interdições quanto a se poder publicar um jornal ou abrir um site. A China tem milhares de presos políticos, tortura institucionalizada, pena de morte ampla e indiscriminadamente aplicada, uma polícia truculenta, que reprime as menores manifestações de dissidência política ou mesmo religiosa.

Se Marx e Engels se aplicam à China é porque a situação da classe trabalhadora lembra a da Inglaterra do século XIX: uma camada de operários que trabalham 12 horas por dia ou mais, pagos com salários de fome e sem direito a nenhum tipo de descanso, e um vasto contingente de camponeses – 800 milhões – que estão perdendo o direito a suas terras para fazerem um “exército industrial de reserva” miserável nas cidades. O país está revertendo a reforma agrária que assegurava uma condição mínima de renda, de inserção social e de pertencimento a uma comunidade, para transformar os camponeses em mendigos urbanos, atomizados e deslocalizados, num cenário muito familiar a nós. A prosperidade não vai chegar a essas pessoas.

O processo de conversão da China ao capitalismo reinstituiu uma sociedade de classes muito mais brutal e sem mediações do que as sociedades de classes do Ocidente. Nenhum milionário ocidental tem o poder de quem tem dinheiro na China. O Partido Comunista Chinês há muito tempo não tem nada de comunista ou marxista, sendo apenas um estamento investindo em se perpetuar no poder. Toda discussão pública sobre o sistema político é proibida. Ciente do próprio déficit de legitimidade, o PCC investe em ufanismos nacionalistas, como as Olimpíadas e o lançamento de foguetes espaciais. O PCC sabe da fragilidade de sua base de sustentação e corre atrás do prejuízo, sobretudo prometendo a prosperidade capitalista, como cenoura para seduzir a população.

Não entendi e achei lamentável que Jayme Martins fosse convidado para escrever um artigo em “Caros Amigos”. Eu já o ouvi, numa palestra na USP, usar o argumento de Deng, que ele cita no artigo (“não importa a cor do gato; importa que ele cace os ratos”), para desqualificar o socialismo no melhor estilo da revista Veja, irônico e desdenhoso, qualquer coisa como: “só ingênuos ainda acreditam em sociedades socialistas; só o capitalismo pode prover riqueza e prosperidade”. A frase de Deng é usada para dizer: sejamos pragmáticos, é o mercado que funciona, não o Estado; não adiantam princípios igualitários, o que importa são os resultados, leia-se, a produção de mercadorias. É a senha para tornar moralmente aceitável o capitalismo selvagem que se instalou lá. É inacreditável a passagem do artigo na qual Jayme Martins usa uma citação da “Crítica à Economia Política” de Marx para chancelar sua posição – usar Marx para legitimar a mais crua versão do neocapitalismo!

A China não é uma potência mundial emergente e benigna, que fará um desejado contraponto aos Estados Unidos. A China tem uma política externa truculenta e beligerante, não se dando sequer ao trabalho de disfarçar que assume que o seu poder lhe dá prerrogativas de decidir e agir unilateralmente. A política asiática da China é muito semelhante à política dos EUA para a América Latina – de deslavado imperialismo. A ofensiva africana da China envolve compromissos e a sustentação de governos carniceiros, em troca de vantagens econômicas, numa abordagem claramente neocolonial. O envolvimento da China em Darfur foi direto e flagrante e o governo da China nem se deu ao trabalho de responder às críticas que recebeu.

A China tem sido usada, nos últimos anos, como o grande argumento do capitalismo: “Vejam a arrancada que pode dar um país quando se livra dos dogmas socialistas!”. O que está se criando lá é uma sociedade capitalista da pior espécie e uma potência capitalista que promete herdar e assumir o papel desempenhado primeiro pelo Império Britânico e depois pelos Estados Unidos no controle mundial da produção e circulação de riquezas. Para nós, socialistas, a emergência da China é razão de preocupação, não de comemoração. É o que eu esperaria que “Caros Amigos” mostrasse, e não que fizesse coro com outras publicações que festejam o sucesso chinês e o apresentam como porta-estandarte do capitalismo para o Terceiro Mundo.

Saudações, Bruno Dallari

Bruno Dallari é Professor do Departamento de Linguística da PUC-SP

Slavoj Žižek – Use Your Illusions

London Review of Books

Use Your Illusions

Slavoj Žižek

Noam Chomsky called for people to vote for Obama ‘without illusions’. I fully share Chomsky’s doubts about the real consequences of Obama’s victory: from a pragmatic perspective, it is quite possible that Obama will make only some minor improvements, turning out to be ‘Bush with a human face’. He will pursue the same basic policies in a more attractive way and thus effectively strengthen the US hegemony, damaged by the catastrophe of the Bush years.

There is nonetheless something deeply wrong with this reaction – a key dimension is missing from it. Obama’s victory is not just another shift in the eternal parliamentary struggle for a majority, with all the pragmatic calculations and manipulations that involves. It is a sign of something more. This is why an American friend of mine, a hardened leftist with no illusions, cried when the news came of Obama’s victory. Whatever our doubts, for that moment each of us was free and participating in the universal freedom of humanity.

In The Contest of Faculties, Kant asked a simple but difficult question: is there true progress in history? (He meant ethical progress, not just material development.) He concluded that progress cannot be proven, but we can discern signs which indicate that progress is possible. The French Revolution was such a sign, pointing towards the possibility of freedom: the previously unthinkable happened, a whole people fearlessly asserted their freedom and equality. For Kant, even more important than the – often bloody – reality of what went on on the streets of Paris was the enthusiasm that the events in France gave rise to in the eyes of sympathetic observers all around Europe and in places as far away as Haiti, where it triggered another world-historical event: the first revolt by black slaves. Arguably the most sublime moment of the French Revolution occurred when the delegation from Haiti, led by Toussaint l’Ouverture, visited Paris and were enthusiastically received at the Popular Assembly as equals among equals.

Obama’s victory is a sign of history in the triple Kantian sense of signum rememorativum, demonstrativum, prognosticum. A sign in which the memory of the long past of slavery and the struggle for its abolition reverberates; an event which now demonstrates a change; a hope for future achievements. The scepticism displayed behind closed doors even by many worried progressives – what if, in the privacy of the voting booth, the publicly disavowed racism will re-emerge? – was proved wrong. One of the interesting things about Henry Kissinger, the ultimate cynical Realpolitiker, is how utterly wrong most of his predictions were. When news reached the West of the 1991 anti-Gorbachev military coup, for example, Kissinger immediately accepted the new regime as a fact. It collapsed ignominiously three days later. The paradigmatic cynic tells you confidentially: ‘But don’t you see that it is all really about money/power/sex, that professions of principle or value are just empty phrases which count for nothing?’ What the cynics don’t see is their own naivety, the naivety of their cynical wisdom which ignores the power of illusions.

The reason Obama’s victory generated such enthusiasm is not only that, against all odds, it really happened: it demonstrated the possibility of such a thing happening. The same goes for all great historical ruptures – think of the fall of the Berlin Wall. Although we all knew about the rotten inefficiency of the Communist regimes, we didn’t really believe that they would disintegrate – like Kissinger, we were all victims of cynical pragmatism. Obama’s victory was clearly predictable for at least two weeks before the election, but it was still experienced as a surprise.

The true battle begins now, after the victory: the battle for what this victory will effectively mean, especially within the context of two other more ominous events: 9/11 and the current financial meltdown, an instance of history repeating itself, the first time as tragedy, the second as comedy. President Bush’s addresses to the American people after 9/11 and the financial meltdown sound like two versions of the same speech. Both times, he evoked the threat to the American way of life and the need for fast and decisive action. Both times, he called for the partial suspension of American values (guarantees to individual freedom, market capitalism) to save those very values. Where does this similarity come from?

The fall of the Berlin Wall on 9 November 1989 marked the beginning of the ‘happy 1990s’. According to Francis Fukuyama, liberal democracy had, in principle, won. The era is generally seen as having come to an end on 9/11. However, it seems that the utopia had to die twice: the collapse of the liberal-democratic political utopia on 9/11 did not affect the economic utopia of global market capitalism, which has now come to an end.

The financial meltdown has made it impossible to ignore the blatant irrationality of global capitalism. In the fight against Aids, hunger, lack of water or global warming, we may recognise the urgency of the problem, but there is always time to reflect, to postpone decisions. The main conclusion of the meeting of world leaders in Bali to talk about climate change, hailed as a success, was that they would meet again in two years to continue the talks. But with the financial meltdown, the urgency was unconditional; a sum beyond imagination was immediately found. Saving endangered species, saving the planet from global warming, finding a cure for Aids, saving the starving children . . . All that can wait a bit, but ‘Save the banks!’ is an unconditional imperative which demands and gets immediate action. The panic was absolute. A transnational and non-partisan unity was immediately established, all grudges among world leaders momentarily forgotten in order to avert the catastrophe. (Incidentally, what the much-praised ‘bi-partisanship’ effectively means is that democratic procedures were de facto suspended.) The sublimely enormous sum of money was spent not for some clear ‘real’ task, but in order to ‘restore confidence’ in the markets – i.e. for reasons of belief. Do we need any more proof that Capital is the Real of our lives, the Real whose demands are more absolute than even the most pressing demands of our social and natural reality?

Compare the $700 billion spent on stabilising the banking system by the US alone to the $22 billion pledged by richer nations to help poorer nations cope with the food crisis, of which only $2.2 billion has been made available. The blame for the food crisis cannot be put on the usual suspects of corruption, inefficiency or state interventionism. Even Bill Clinton has acknowledged that ‘we all blew it, including me,’ by treating food crops as commodities instead of a vital right of the world’s poor. Clinton was very clear in blaming not individual states or governments, but the long-term Western policy imposed by the US and European Union and enacted by the World Bank, the IMF and other international institutions. African and Asian countries were pressured into dropping government subsidies for farmers, opening up the way for the best land to be used for more lucrative export crops. The result of such ‘structural adjustments’ was the integration of local agriculture into the global economy: crops were exported, farmers were thrown off their land and pushed into sweat-shops, and poorer countries had to rely more and more on imported food. In this way, they are kept in postcolonial dependence, vulnerable to market fluctuations – soaring grain prices (caused in part by the use of crops for biofuels) have meant starvation in countries from Haiti to Ethiopia.

Clinton is right to say that ‘food is not a commodity like others. We should go back to a policy of maximum food self-sufficiency. It is crazy for us to think we can develop countries around the world without increasing their ability to feed themselves.’ There are at least two things to add here. First, developed Western countries have taken great care to maintain their own food self-sufficiency through financial support for their farmers (farm subsidies account for almost half of the entire EU budget). Second, the list of things which are not ‘commodities like others’ is much longer: apart from food (and defence, as all patriots are aware), there are water, energy, the environment, culture, education, health – who will make decisions about these, if they cannot be left to the market? It is here that the question of Communism has to be raised again.

The cover story in Time magazine on 5 June 2006 was ‘The Deadliest War in the World’ – a detailed account of the political violence that has killed four million people in Congo over the last decade. None of the usual humanitarian uproar followed, just a couple of readers’ letters. Time picked the wrong victim: it should have stuck to Muslim women or Tibetan monks. The death of a Palestinian child, not to mention an Israeli or an American, is worth thousands more column inches than the death of a nameless Congolese. Why? On 30 October, Associated Press reported that Laurent Nkunda, the rebel general besieging Congo’s eastern provincial capital Goma, has said he wants direct talks with the government about his objections to a billion-dollar deal giving China access to the country’s vast mineral riches in exchange for a railway and highway. Neo-colonialist problems aside, this deal poses a vital threat to the interests of local warlords, since it would create the infrastructural base for the Democratic Republic of Congo as a functioning united state.

In 2001, a UN investigation into the illegal exploitation of natural resources in Congo found that the conflict in the country is mainly about access to, control of and trade in five key minerals: coltan, diamonds, copper, cobalt and gold. According to this investigation, the exploitation of Congo’s natural resources by local warlords and foreign armies was ‘systematic and systemic’. Rwanda’s army made at least $250 million in 18 months by selling coltan, which is used in cellphones and laptops. The report concluded that the permanent civil war and disintegration of Congo ‘has created a “win-win” situation for all belligerents. The only loser in this huge business venture is the Congolese people.’ Beneath the façade of ethnic warfare, we thus discern the contours of global capitalism.

Among the greatest exploiters are Rwandan Tutsis, the victims of the genocide 14 years ago. Earlier this year, the Rwandan government published documents that demonstrated the Mitterrand administration’s complicity in the genocide: France supported the Hutu plan for the takeover, even supplying them with arms, in order to regain influence at the expense of the anglophone Tutsis. France’s outright dismissal of the accusations as totally unfounded was, to say the least, itself unfounded. Bringing Mitterrand to the Hague tribunal, even posthumously, would cross a fateful line, for the first time bringing to trial a leading Western politician who pretended to act as a protector of freedom, democracy and human rights.

There has been in recent weeks an extraordinary mobilisation of the ruling ideology to combat the threats to the current order. The French neoliberal economist Guy Sorman, for example, recently said in an interview in Argentina that ‘this crisis will be short enough.’ By saying this, Sorman is fulfilling the basic ideological demand with regard to the financial meltdown: renormalise the situation. As he puts it elsewhere, ‘this ceaseless replacement of the old with the new – driven by technical innovation and entrepreneurialism, itself encouraged by good economic policies – brings prosperity, though those displaced by the process, who find their jobs made redundant, can understandably object to it.’ (This renormalisation coexists with its opposite: the panic raised by the authorities in order to make the public ready to accept the proposed – obviously unjust – solution as inevitable.) Sorman admits that the market is full of irrational behaviour, but is quick to add that ‘it would be preposterous to use behavioral economics to justify restoring excessive state regulations. After all, the state is no more rational than the individual, and its actions can have enormously destructive consequences.’ He goes on:

An essential task of democratic governments and opinion makers when confronting economic cycles and political pressure is to secure and protect the system that has served humanity so well, and not to change it for the worse on the pretext of its imperfection. Still, this lesson is doubtless one of the hardest to translate into language that public opinion will accept. The best of all possible economic systems is indeed imperfect. Whatever the truths uncovered by economic science, the free market is finally only the reflection of human nature, itself hardly perfectible.

Rarely was the function of ideology described in clearer terms: to defend the existing system against any serious critique, legitimising it as a direct expression of human nature.

It is unlikely that the financial meltdown of 2008 will function as a blessing in disguise, the awakening from a dream, the sobering reminder that we live in the reality of global capitalism. It all depends on how it will be symbolised, on what ideological interpretation or story will impose itself and determine the general perception of the crisis. When the normal run of things is traumatically interrupted, the field is open for a ‘discursive’ ideological competition. In Germany in the late 1920s, Hitler won the competition to determine which narrative would explain the reasons for the crisis of the Weimar Republic and the way out of it; in France in 1940 Maréchal Pétain’s narrative won in the contest to find the reasons for the French defeat. Consequently, to put it in old-fashioned Marxist terms, the main task of the ruling ideology in the present crisis is to impose a narrative that will not put the blame for the meltdown on the global capitalist system as such, but on its deviations – lax regulation, the corruption of big financial institutions etc.

Against this tendency, one should insist on the key question: which ‘flaw’ of the system as such opens up the possibility for such crises and collapses? The first thing to bear in mind here is that the origin of the crisis is a ‘benevolent’ one: after the dotcom bubble burst in 2001, the decision reached across party lines was to facilitate real estate investments in order to keep the economy going and prevent recession – today’s meltdown is the price for the US having avoided a recession seven years ago.

The danger is thus that the predominant narrative of the meltdown won’t be the one that awakes us from a dream, but the one that will enable us to continue to dream. And it is here that we should start to worry: not only about the economic consequences of the meltdown, but about the obvious temptation to reinvigorate the ‘war on terror’ and US interventionism in order to keep the economy running. Nothing was decided with Obama’s victory, but it widens our freedom and thereby the scope of our decisions. No matter what happens, it will remain a sign of hope in our otherwise dark times, a sign that the last word does not belong to realistic cynics, from the left or the right.

HA-JOON CHANG – Política de juros altos do Brasil já foi longe demais

São Paulo, segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

HA-JOON CHANG

Política de juros altos do Brasil já foi longe demais

Para professor de Cambridge e crítico da globalização, país sucumbe ao trauma da inflação e se atrasa voluntariamente

ESTA É a hora de deixar de lado a cartilha neoliberal e adotar o pragmatismo, defende o economista Ha-Joon Chang, considerado o mais efetivo crítico da globalização. Ele não está pregando um grande e radical rompimento ideológico: quer só que o Brasil copie as medidas que no passado foram tomadas pelas nações desenvolvidas para crescer e hoje são rejeitadas por esses mesmos países, como a proteção da indústria nacional.

DENYSE GODOY
DA REPORTAGEM LOCAL

O sistema de comércio internacional também precisa ser reformado, na visão de Ha-Joon Chang, a fim de aplicar um tipo de protecionismo assimétrico. Permitindo que, de acordo com o seu grau de desenvolvimento individual, cada país mais pobre coloque determinadas barreiras tarifárias, o que daria a todos condições justas de competição.
Leia abaixo trechos da entrevista que o estudioso sul-coreano concedeu à Folha durante viagem ao Brasil para participar do Laporde (Programa Latino-Americano Avançado de Reavaliação de Macroeconomia e Desenvolvimento), sediado pela Escola de Economia de São Paulo, da FGV (Fundação Getulio Vargas).
FOLHA – A Coreia do Sul sempre é apontada como modelo entre as nações ditas “em desenvolvimento”. Como o país conseguiu sobressair?
HA-JOON CHANG
– O Brasil lidera a América Latina, e seu progresso recente não deve ser desprezado. Porém a Coreia realmente cresceu mais rápido com uma estratégia basicamente de proteger a indústria local.

FOLHA – Isso é considerado um pecado capital pelo pensamento econômico dominante…
CHANG
– Do mesmo jeito que as crianças são mandadas à escola antes de procurar um emprego, é preciso que sejam dadas condições para que a indústria acumule capacidade tecnológica e seja capaz de competir com as empresas dos países ricos. O Brasil teve que subsidiar a Embraer no princípio -se ela tivesse sido abandonada na competição com a Bombardier e a Fokker, não teria sobrevivido. O problema é que em alguns países se dá a proteção e nunca se retira, o que deixa as empresas preguiçosas.

FOLHA – Embora o Brasil tenha progredido bastante nas últimas décadas, acredita-se que poderia ir mais longe do que efetivamente tem conseguido. O que o detém?
CHANG
– Existem países na África e em algumas partes da Ásia que realmente não sabem o que fazer, mas o Brasil não é uma nação pequena e pobre que não tem recursos. O Brasil construiu uma base industrial gigante, tem empresas de porte global em setores como o aeroespacial, o de álcool, o de petróleo, o de engenharia civil. O maior problema do país tem sido do lado da demanda, uma dificuldade criada pela política monetária excessivamente conservadora, com elevada taxa de juros e enorme superávit primário. Entendo o porquê de ela ter sido adotada no começo.
Havia a hiperinflação, e o espaço para decisões econômicas racionais era pouco. Mas o país está fazendo isso tudo há tempo demais. O fato de uma política ter sido correta em 1996 não significa que ainda é em 2009.

FOLHA – A inflação é um trauma para a população, os empresários e os políticos.
CHANG
– Quem sofreu com a hiperinflação depois se torna excessivamente cauteloso, é compreensível. A Alemanha e Taiwan tiveram tal experiência. Mas o Brasil levou essa política longe demais. Se a taxa de juros de um país é alta demais, ninguém quer empreender, pois ter um negócio significa lidar com questões trabalhistas, de distribuição… É mais fácil comprar um título público. Então, as empresas se tornam conservadoras, não tomam nenhum empréstimo para investir, para incrementar sua atividade. As companhias brasileiras são as menos alavancadas do mundo -não que o endividamento seja necessariamente bom, mas ser a última em tomada de crédito mostra que tem algo errado. Na realidade, o Brasil não criou empresas novas nos últimos 10 ou 20 anos, enquanto os demais países seguem avançando rápido.
Dez anos atrás, a China não era nada. Era grande, mas nem chegava perto do Brasil. Agora, compete com o país em muitos mercados. [Exaltado] Eu fico realmente com raiva, porque o Brasil está desperdiçando o grande potencial que possui. É de cortar o coração que esteja voluntariamente se atrasando. Do jeito que é feito, o controle da inflação mata o crescimento.

FOLHA – O senhor acha que os bancos centrais devem ser independentes para decidir essas políticas?
CHANG
– Não. Trata-se de uma instituição tão importante, precisa prestar contas. Dada a sua natureza, o banco central tende a favorecer o crescimento do sistema financeiro. Os seus executivos não estão deliberadamente aniquilando os outros setores, mas são naturalmente influenciados por outros banqueiros, com os quais se encontram regularmente.
Sou contra a independência; porém, se ela é concedida, é preciso dar também os objetivos corretos. Na prática, tem sido um pouco diferente nos últimos anos, mas o mandato do Fed [Federal Reserve, o banco central dos EUA] diz explicitamente que a instituição deve cuidar da estabilidade de preços no contexto de crescimento e geração de empregos. O Brasil está pagando um preço muito alto pelo trauma da inflação -é como um cidadão que vivia feliz e, depois de ser assaltado na rua, tranca-se em casa e não quer sair mais. Agora é a hora de seguir em frente, especialmente se os outros países estão baixando os juros. Pode-se reduzir o superávit primário para zero. Neste momento de crise, é difícil para as nações ricas apontar o dedo para o Brasil e falar “Oh, essas medidas estão erradas, você é mau”, porque o Brasil se encontra em posição muito melhor que a delas. Esta é a grande chance. Se o país perder a atual oportunidade, quando vai diminuir os juros? Daqui a três ou quatro anos, quando os outros países voltarem a subir suas taxas, será tarde.
Não sou antibanqueiro, é bom deixar claro. Concordo que banqueiros precisem ser mais conservadores que industriais. Para uma sociedade saudável, no entanto, é essencial equilibrar os interesses dos diferentes grupos.

FOLHA – Sobre comércio internacional, o sr. acha possível um entendimento? As negociações da Rodada Doha se mostraram infrutíferas.
CHANG
– O atual sistema representado pela OMC (Organização Mundial do Comércio) é totalmente contra os países em desenvolvimento. Deixe-me usar uma figura que sempre emprego para explicar essa ideia: em muitos esportes, existe a separação de classes por peso. No boxe, por exemplo, a divisão nas categorias mais leves é de um quilo -ou seja, avalia-se que é injusto colocar para lutar duas pessoas cuja diferença de peso seja maior que essa. No comércio internacional, entretanto, acha-se que Honduras deve competir no mesmo nível que os EUA.
Forçar os países em desenvolvimento a empregar políticas que não lhes são apropriadas é matar a galinha dos ovos de ouro. Deixando-os crescer no seu ritmo, vão se tornar no longo prazo grandes mercados consumidores para os produtos dos países ricos. A propriedade intelectual, que é pesadamente protegida pela OMC, deveria ser flexibilizada. Quando precisavam de tecnologia, todos os países ricos se permitiam importar o conhecimento alheio.
As cartilhas sempre enumeram regras: livre comércio, desregulação, privatização. Observando os casos de sucesso, entretanto, nota-se que sempre fizeram diferente do que agora defendem como correto. Ora, os países que julgam que não há diferenças de condições de competição deveriam mandar suas crianças para a guerra. É sério. Precisamos mudar radicalmente a nossa forma de encarar o assunto.

FOLHA – Qual é a sua proposta?
CHANG
– Um tipo de protecionismo assimétrico. Os países menos desenvolvidos têm mais proteções e, à medida que avançam, as barreiras diminuem até que possam participar do livre comércio em pé de igualdade com os demais. Um comitê técnico definiria as faixas.
Colocar no mesmo jogo países que não têm forças equivalentes não é o único problema, porém. Os países ricos ainda asseguram proteção para as áreas em que são fracos, como a agricultura. Eles são rígidos em exigir que os países em desenvolvimento eliminem completa e indubitavelmente todas as barreiras aos seus produtos industrializados e em troca dizem que talvez, quem sabe, possam pensar em diminuir os subsídios dados aos seus fazendeiros. O Brasil teria que cortar tarifas a um ponto que não se vê desde a época do colonialismo. Não é surpresa, portanto, que as recentes negociações não tenham chegado a lugar nenhum.

FOLHA – A crise levará a um fechamento de fronteiras comerciais?
CHANG
– Acho que é um exagero. Eu critico a OMC, mas não estamos na década de 1930, quando não havia um sistema. Hoje, os países fazem de tudo para trapacear, mas pelo menos as regras estão colocadas.